O “R” da questão

por Edson Grandisoli

Publicado no site ENVOLVERDE
em 30-08-2011

 

À medida que o ser humano vai se tornando mais consciente e reflexivo a respeito de seu impacto sobre o planeta, boas ideias emergem como resposta nos mais diferentes contextos e nos mais diferentes formatos.

Uma dessas boas ideias – não tão recente, mas que ainda é largamente utilizada – é a dos 3 Rs (reduzir, reutilizar e reciclar), verbos que resumem importantes ações para melhorar nossa relação com o planeta ligados ao importante binômio consumo-descarte.

Ao mesmo tempo que os 3 Rs são carregados de significado, sua mensagem é simples e elegante para resistir ao desgaste do tempo. Sua grande virtude foi unir a ação ao lúdico, tornando-se um modelo a ser seguido (e perseguido) dentro de campanhas de comunicação ambiental.

Por dispensar grandes explicações, não é a toa que os 3 Rs estão aí até hoje.

Como toda boa ideia, os 3 Rs se multiplicaram e hoje eles já são sete: reduzir, reutilizar, reciclar, reaproveitar, recusar, recuperar e repensar.

Apesar de considerar todos os Rs importantes, considero o R de repensar vital para a existência de todos os outros da família, pois é somente repensando alguns de nossos hábitos que somos capazes de perceber pontos de ruptura que nos levam a mudar de comportamento. Alguns chamam esse processo de “criar consciência”.

Seja qual for o nome, o R de repensar é infelizmente o menos falado da família, apesar de sua importância.

Falando em repensar, segundo a pesquisa ImagePower® Green Brands 2011, os brasileiros estão mais preocupados com o meio ambiente (77%) do que com a economia (20%). Nos dois aspectos, o Brasil é o país com o maior e o menor índice entre todas as nações entrevistadas.

O resultado é, sem dúvidas, animador.

Apesar dos números positivos, estar preocupado com o meio ambiente não significa que estamos fazendo alguma coisa para melhorar nossa relação com ele. O meio ambiente para muitos é um local remoto talvez no meio da Amazônia ou sob quilômetros de água no oceano, onde sempre haverá alguma ONG ou entidade governamental preocupada em preservá-lo para as gerações futuras.

O dia a dia da maioria dos 84% dos brasileiros que residem nas zonas urbanas é normalmente ocupado demais para tentar compreender como suas ações afetam o meio ambiente e, somado a esse fato, as consequências da maioria dos problemas ambientais não afeta (por enquanto) o meu estilo de vida. O resultado dessa conjunção de fatores é simples: repensar e mudar o quê e para quê?

A indiferença, a falta de informação e a falta de visão de longo prazo são os grandes motores dos impactos ambientais e é necessário que percebamos que a situação pela qual passamos no momento é de alguma forma nova, a fim de mudarmos alguns de nossos comportamentos.

Felizmente, muitas pessoas têm percebido a urgência da situação e têm repensado e mudado seus hábitos. O próprio hábito de reciclar, tão raro há uma ou duas décadas, hoje já faz parte da rotina de um grande número de empresas e residências. Outro exemplo simples é o crescente número de pessoas que têm aderido às “sacolas ecológicas”, abrindo mão de parte de seu consumo de plástico.

Mas nem sempre o sucesso é uma garantia.

Recentemente notei que alguns (poucos) colegas de trabalho já possuem sua caneca para água e café, deixando de lado os copinhos plásticos. Infelizmente, observei também que alguns acabam desistindo da iniciativa por se sentirem verdadeiros alienígenas e voltam ao copinho de plástico.

Como professor há 15 anos, observo que as propostas voltadas para garantir um futuro melhor – ambiental, social ou economicamente falando – são sempre muito bem recebidas pelos estudantes, apesar de somente alguns realmente as colocarem em prática. Basta caminhar pelo pátio das escolas após o intervalo e ver a quantidade de lixo no chão ou depositado de forma incorreta nas lixeiras de recicláveis. Infelizmente, a teoria da sala de aula ainda está muito distante da prática e é urgente a necessidade de criarmos uma nova Educação Ambiental que dê conta dos novos e antigos desafios nas relações ser humano-natureza.

A mudança de determinados comportamentos, muitas vezes enraizados há séculos, sempre acontece a longuíssimo prazo, quando acontece.

Novos hábitos, não somente do ponto de vista ambiental, só surgem e se disseminam graças à persistência e idealismo de alguns em fazer (e continuar fazendo) aquilo que acham certo. Para esses pioneiros vale adaptar o ditado: “uma andorinha só faz verão”.

Repensar e criar uma nova forma de viver deve fazer parte de nossas vidas em todos os sentidos e em todos os momentos. É isso que nos torna capazes de verdadeiramente mudar o mundo.

Para concluir, gostaria de aumentar a família dos Rs sugerindo um caçula, o R de reinventar.

Repensar e reinventar, uma dupla de futuro para nós e para todo o planeta.

E você, já repensou (ou reinventou) algum de seus hábitos hoje?

 

 

Campanha de Comunicação

 

Na semana passada (25-08) a equipe do projeto Educação para a Sustentabilidade lançou oficialmente a campanha de comunicação que visa reduzir – e eliminar no futuro – o consumo de copos plásticos no colégio.

As frases colocadas ao lado dos porta-copos foram criadas pelos alunos participantes do projeto e buscam uma real mudança de comportamento entre os estudantes do fundamental e médio.

O uso de copos plásticos começou em 2009, quando a gripe suína era uma questão importante de saúde pública.

Para saber mais sobre nosso projeto e acompanhar as novidades, curta nossa página no Facebook.

 

Educação para a sustentabilidade

por Edson Grandisoli

Publicado no site ENVOLVERDE
28-07-2011

 

“Como liberdade, justiça e democracia, sustentabilidade
não possui um significado comum a todos.
John Huckle – Education for Sustainability (2001).

 

O conceito

A palavra sustentabilidade tem sido utilizada nos últimos anos nos mais diferentes contextos e propósitos. Por esse fato, muitos autores têm afirmado que falar em sustentabilidade simplesmente perdeu o sentido, ou seja, se tornou apenas mais um jargão em discursos politicamente corretos.

Leonardo Boff, um dos participantes na elaboração da Carta da Terra, afirma que “se a sustentabilidade representa o lado mais objetivo, ambiental, econômico e social da gestão dos bens naturais e de sua distribuição, o cuidado denota mais seu lado subjetivo: as atitudes, os valores éticos e espirituais que acompanham todo esse processo, sem os quais a própria sustentabilidade não acontece ou não se garante a médio e longo prazos”.

As palavras de Boff trazem consigo uma das características centrais do conceito de sustentabilidade: a complexidade. O conceito moderno de sustentabilidade engloba, ao mesmo tempo, aspectos econômicos, sociais, ambientais, éticos, étnicos, políticos, culturais e comportamentais, os quais devem interagir de forma harmônica a fim de garantir a continuidade da vida no planeta, incluindo a nossa própria. Dessa forma, o conceito de sustentabilidade tornou-se a palavra de ordem – e a tábua de salvação – em quase todos os assuntos relacionados ao ser humano, seu ambiente, sua sociedade, sua economia, etc.

Dentro desse panorama, não é a toa que a palavra pode ter perdido seu significado original ao longo do tempo.

 

Entendendo sustentabilidade

A sustentabilidade tem ganhado espaço dentro da realidade de algumas poucas escolas no Brasil. As restrições do currículo atual, a falta de preparo específico e a grande amplitude do tema talvez sejam apenas alguns dos motivos por trás desse fato.

Na prática escolar, as possibilidades de trabalho com temas relacionados à sustentabilidade são quase infinitas. Mas afinal, como trabalhar com sustentabilidade na escola?

Movido por essa questão, em 2010, tive o privilégio de desenvolver, como consultor em conjunto com um grupo interdisciplinar de professores, um questionário com 40 questões (abertas e fechadas) sobre sustentabilidade, que foi aplicado a 113 estudantes do Ensino Fundamental II (6º a 9º anos) de uma grande escola paulistana. O objetivo do questionário foi investigar de forma mais consistente o que os jovens pensam e entendem sobre sustentabilidade e quais suas atitudes e comportamentos relacionados a ela. Considerei esse passo de investigação fundamental antes de iniciarmos qualquer tipo de intervenção em sala de aula ou fora dela.

Os resultados foram bastante animadores e gostaria de compartilhar alguns deles.

Na primeira seção do questionário, procuramos investigar como a sustentabilidade está presente no imaginário dos estudantes. Encontramos que:

•96% já ouviram falar em sustentabilidade;

•65% não estão inteiramente certos de seu significado;

•91% acreditam que todos deveriam agir de forma sustentável.

Logo de saída foi possível detectar uma aparente contradição relacionada à sustentabilidade. A grande maioria dos estudantes acredita que é importante agirmos de forma sustentável, mesmo sem saber exatamente o que é sustentabilidade. Ao mesmo tempo em que essa contradição parece negativa do ponto de vista conceitual, ela indica que o termo sustentabilidade está associado a algo positivo, que deve ser buscado e alcançado por todos.

Na segunda seção, procuramos investigar mais profundamente a compreensão dos estudantes relacionada ao conceito de sustentabilidade em si. Descobrimos que:

•71% acreditam que sustentabilidade tem como objetivo a preservação do meio ambiente e seus recursos naturais;

•Apenas um estudante apontou a si mesmo(a) como protagonista no processo de transformação do mundo em um lugar mais sustentável.

A forte associação entre sustentabilidade e preservação do meio ambiente não foi surpresa. Os melhores e mais divulgados exemplos de sustentabilidade sempre – ou na grande maioria das vezes – estão associados a uma vertente ambientalista/preservacionista/conservacionista, o que acaba resumindo o conceito de sustentabilidade a modos de melhorar a relação entre ser humano e natureza. Esse resultado vai ao encontro das ideias de Ricketts (2010), que afirma que historicamente o conceito de sustentabilidade nasceu de uma combinação de ideias e ideais do ambientalismo.

Por outro lado, apesar da visível preocupação com as questões ambientais presente no currículo escolar e documentos oficiais que norteiam nossa educação básica, as questões relacionadas à responsabilidade individual e cidadania ainda parecem distantes do pensamento e sentimento da esmagadora maioria dos estudantes avaliados. Somente um único estudante citou a si próprio(a) como responsável por tornar o mundo um lugar mais sustentável, ou seja, a responsabilidade e protagonismo está nas mãos de atores como o governo, as ONGs e os donos de indústrias, por exemplo. Esse distanciamento do papel de cidadão na busca pelo bem comum aponta, portanto, um caminho fundamental de trabalho com nossos estudantes.

Na terceira e quarta seções do questionário, avaliamos em conjunto atitudes e comportamentos dos estudantes por meio de afirmações que descrevem ações ligadas à sustentabilidade. Vale ressaltar que a grande maioria das respostas não apresentou diferenças estatisticamente significativas entre as séries analisadas. Avaliamos que:

•98% consideram a reciclagem como fundamental para a sustentabilidade;

•89% dos estudantes afirmam que sempre costumam reciclar no seu dia a dia;

•98% dos estudantes consideram que apagar a luz de cômodos onde não há ninguém é muito importante para a sustentabilidade;

•83% afirmam que sempre apagam a luz de cômodos vazios no seu dia a dia;

•89% consideram que comprar somente o essencial é muito importante para a sustentabilidade, porém, quanto mais velho o estudante avaliado, mais difícil se torna comprar apenas o essencial em seu dia a dia.

Questões como reciclagem, economia de água e luz parecem estar bem incorporadas ao dia a dia dos estudantes avaliados. Entretanto, quando esbarramos na questão do consumo, o cenário se altera sensivelmente.

 

Um caminho possível

Por muitos anos na minha carreira docente ouvi estudantes dizerem que “o fubá vem do bolo” e “o leite vem da caixinha”. Pode parecer engraçado na hora, mas essas afirmações acabam refletindo a desconexão dos jovens com a natureza.

De acordo com nossos resultados, o tema do consumo parece merecer destaque em projetos envolvendo o tema sustentabilidade, tanto por sua relevância na vida dos estudantes, como por permitir a construção de projetos que efetivamente abordem a complexidade envolvida na construção de um mundo mais sustentável.

Vamos considerar ainda mais três motivos que justificam esse enfoque:

•Segundo o IBGE (2010), 84% da população brasileira é urbana e, em geral, alheia ao impacto ambiental, social e econômico de seu consumo;

•Segundo o Ibope, mais de R$ 300 milhões são investidos em propaganda para estimular o consumo entre os jovens por ano;

•Consumo é um tema naturalmente interdisciplinar, promovendo a participação de diferentes áreas do conhecimento e estimulando a prática do ensino por projetos, que tendem a ser mais desafiadores e interessantes para estudantes e professores.

Em resumo, precisamos ensinar aos nossos jovens desde muito cedo que todo consumo gera um impacto econômico, social e ambiental. E, mais importante que isso, que TER não é a mesma coisa que SER.

Como fonte de inspiração, sugiro o documentário Criança, a alma do negócio, dirigido por Estela Renner.

 

O futuro

As gerações futuras devem ser educadas sobre como colaborar com a construção de um mundo mais sustentável desde agora, para que se tornem criticamente competentes e capazes de tomar decisões positivas do ponto de vista individual e coletivo.

Acredito que para iniciarmos de verdade uma Educação para a Sustentabilidade, um dos caminhos apontados pela nossa pesquisa é o de procurar explorar a complexidade de temas menores e ao mesmo tempo significativos para os estudantes e professores envolvidos.
Aparentemente, tratando-se de Educação para a Sustentabilidade, menos é mais.

O caminho trilhado no Reino Unido, na Escócia, no Canadá, nos Estados Unidos e na Austrália por meio das green schools já é antigo e conta com inúmeras investigações e experiências de sucesso, que vão desde a adaptação do currículo em função do tema sustentabilidade até a capacitação de professores e rearranjo completo da arquitetura escolar.

No Brasil, a história da sustentabilidade ligada à educação pode ser ainda considerada experimental – como o que acabei de apresentar – e conta com praticamente nenhum apoio nos documentos oficiais da educação básica.

Enquanto isso, vale novamente a coragem, a criatividade e a vontade de construir um futuro melhor para todos, marca registrada dos educadores brasileiros.

Para finalizar, gostaria de citar uma vez mais John Huckle: “… o papel chave da Educação para a Sustentabilidade é o de ajudar as pessoas a refletirem e agirem […] e vislumbrarem futuros alternativos de uma forma mais consciente e democrática”.

 

Referências

BOFF, L. Sustentabilidade e cuidado: um caminho a seguir. Disponível em http://pousio.blogspot.com/2011/06/leonardo-boff-sustentabilidade-e.html. Consultado em 21-07-2011.

HUCKLE, J. & STERLING, S. Education for Sustainability. Earthscan Publications Limited: London, 2001.

RICKETTS, G. M. The roots of sustainability, Acad. Quest. 23, 2010, pp. 20-53.