Sustentabilidade e Construção

Palavras da Prof.a Thaís:

Tudo o que pensei em falar sobre sustentabilidade me pareceu bobagem diante da possibilidade de ter um texto escrito pelo mestre Kaká Werá Jecupé, índio de origem tapuia, ambientalista, escritor, conferencista, fundador do Instituto Arapoty, organização voltada para a difusão dos valores sagrados e éticos da cultura indígena, entre outras coisas.

Ela tem razão… com seu jeito simples Kaká Werá Jecupe nos brinda com a profundidade da sabedoria indígena… temos muito o que aprender…

“A palavra sustentabilidade é como a palavra índio: uma expressão simples que guarda sentidos complexos e diversos. De acordo com a definição mais comum e geral, sustentabilidade é “suprir as necessidades da geração presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprir as suas”. Esta definição vai ao encontro dos valores culturais de tradições indígenas, desde o Brasil até a América do Norte, que diziam que seus líderes deviam sempre considerar os efeitos das suas ações nos seus dependentes até sete gerações futuras.

Os sábios indígenas do passado meditaram e inspiraram-se na natureza, seus ritmos e ciclos, para considerar seu modo de vida, suas filosofias e suas práticas éticas. E sustentabilidade diz respeito à interdependência de todas estas coisas. As árvores menores, por exemplo, beneficiam e são beneficiadas pelo crescimento das árvores maiores, assim como os insetos e pequenos animais colaboram gradualmente para a manutenção da biodiversidade e continuidade da vida. Observando como os pássaros constroem suas moradas, é que nasceu a ecoarquitetura e a bioconstrução indígena, desde as ocas e as taperas, que são os ninhos humanos.

A partir destes princípios, o Instituto Arapoty começou a estudar soluções sustentáveis e saudáveis para a construção, adaptadas ao mundo contemporâneo. A evolução da oca para a alvenaria provocou grande impacto na vida das pessoas, que merece atenção especial do setor da construção civil. O ambiente construído exerce mais influência sobre nossa saúde (física e psicológica), do que podemos imaginar.

Em um pensamento ecoarquitetônico, a questão da saúde é fator decisivo para a escolha dos materiais. Quando, por questões técnicas ou logísticas, não for possível o emprego de materiais totalmente naturais, faz-se a opção por alternativas encontradas no mercado que sejam menos agressivas à saúde e que agreguem outros valores ecológicos, como os produtos reciclados.

Dentre todas as opções para materiais de vedação, as paredes em terra crua são unanimemente consideradas as mais saudáveis e que propiciam melhor qualidade de ar interno, isso porque a terra se comporta como um organismo vivo que “trabalha” de acordo com o clima, ”puxando” a umidade excessiva no ambiente e liberando-a conforme a necessidade. Além disso, o barro tem a capacidade de armazenar calor, aquecendo e resfriando o ambiente por vias passivas.

O barro é vivo, flexível, se adapta ao espaço onde é construído e capta a saudável energia do Sol durante o dia e a redistribui durante a noite, por todo o ambiente interno. Este é o ensinamento que o João de barro realiza na sua construção.

Além disso, o uso da palha e das folhas, como os pássaros fazem, traz a qualidade do acolhimento e, de modo indireto, as propriedades energéticas das plantas, de acordo com as crenças indígenas, que contribuem para a qualidade de aninhar do clã, da tribo.”

Kaká Werá Jecupé (Extraído da Revista Festival da Casa)